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Altamiro Fernandes
A vida em verso e prosa
Textos

Era Um Ser Humano?

 

Lá fora, um ventinho sibilante empurrava um gostoso friozinho para dentro do meu quarto. A aconchegante coberta – acompanhada pelo lençol e um grosso edredom – formavam um trio que tinha como finalidade manter-me aquecido.

 

O estridente ruído do celular retira-me dos meus devaneios. Na noite que ora findava, determinei-lhe: -Acorde-me às 06h00, porque tenho que ir ao laboratório, a fim de oferecer o meu braço ao Vampiro, para a coleta do sangue a ser examinado. O jejum de oito horas estava dentro do tempo previsto. O meu aconchegante Trio Protetor açulava a minha preguiça, parecendo dizer-me:

-Não vá não, bobo. Fica um pouco mais nesta caminha aconchegante. Lá fora, está um vento frio e sibilante de gelar ossos. – Confidenciaram-me!

 

Não dou ouvidos – mas bem que gostaria de ter dado – ao meu Trio Protetor. Da cama – fazendo um esforço danado – me afasto rumo ao banheiro onde uma ducha bem quentinha me aguardava. Tomo um ligeiro banho – bem que gostaria de ter demorado – enxugo o corpo, me apronto sentindo vontade de tomar o fumegante e convidativo café. A vampiresca lembrança do Vampiro de Laboratório me faz retroceder. Na garagem, pego meu carro e parto para o Castelo do Drácula. Por sorte, encontro uma vaga no estacionamento. Estaciono, saio do carro e sou açoitado pelo sibilante e gélido frio. Mesmo estando agasalhado, senti o quão frio estava fazendo. Fecho o carro e algo desperta minha tenção: um monogâmico e fidelíssimo casal de pombos fustigava um saco de lixo deixado na calçada. Buscavam o café da manhã para si e filhotes. Um cão vira-latas espanta-os. Queria participar do “breakfast” descoberto pelo casal: um apetitoso naco de queijo – provavelmente estragado – que no lixo fora descartado. Os pombos se afastam. O vira-latas – que havia corrido para espantar os pombos do seu lanche – ficou “a ver navios”. Também – e de olho vivo no queijo – um homem se abaixa, pega-o e come sob os tristes olhos do faminto vira-latas.

 

A triste cena tornou-me pio. Tive um tremendo dó por tanta miséria estampada na face daquele infeliz mendigo cujos trapos o expunha ao sibilante vento frio. Dele me aproximo dizendo-lhe:

-Dê àquele cãozinho este pedaço de queijo. Vamos à lanchonete tomarmos um café bem quente, para espantarmos este frio danado! – dissera-lhe!

Ainda desconfiado, olhou para o queijo, volveu o olhar para o vira-latas – e ainda titubeante – aceitou a troca.

-Peça o seu lanche! – Incentivei-o!

-Moço, me dá um copo de café com leite, um pão com manteiga. – pediu ao garçom!

-O senhor não vai tomar um café? – indagou-me!

-Não! Estou em regime. Vou fazer um exame de sangue!

Ele sorriu! Foi, aquela, a primeira vez que o vira sorrindo. O motivo de mostrar o siso estava no fumegante copo de café com leite e o crocante pão com manteiga que estava lhe sendo servido pelo garçom.

-Você vai querer mais alguma coisa para comer? – pergunto-lhe!

-Não senhor! – titubeante respondera-me!

 

Chamei o garçom e pedi-lhe que preparasse uma sacola com um lanche bem reforçado, para o meu novo amigo, contendo: coxinhas, pastéis, quibes e mais alguns pães amanteigados, para ele levar.

 

A hora de me encontrar com o Vampiro se aproximava. Despeço-me do meu amigo mendigo e, só então, noto suas pupilas navegando em um mar de lágrimas. Dele me despeço ouvindo-lhe os agradecimentos.

 

Saio correndo para o Castelo do Drácula, onde o Vampiro estava à minha espera. Não queria que o meu amigo mendigo notasse as minhas pupilas navegando no mar de lágrimas que – destruindo as pálpebras-comportas – desciam-me pelas faces!

 

Adentrando os portais do Castelo do Drácula, sou recebido por uma vampiresca mocinha com sorriso de quem estava esfaimada por sugar-me a carótica (Ops!)  veia do meu braço. Ela a mim cumprimenta enquanto mostrava-me uma quantidade de recipientes que deveriam ser enchidos com o meu sangue sagrado. Neles estavam contidos o meu nome e todos os demais dados que os diferenciavam dos demais sangues que não eram – como o meus – sagrados! Rio e ressorrio dos meus tolos pensares, enquanto me ajeito para dirigir-me ao meu carro. O sibilante frio continuava o seu castigo sobre mim e todos os passantes. Fecho o agasalho, uma detetivesca capa de agente secreto americano, tipo assim, FBI que – no meu caso – era uma sigla que dizia: Federação do Bobos Idiotas, o tonto Euzinho!

 

Aproximo-me do meu carro. Os meus olhares perscrutam o ambiente. Vejo que a sacola contendo o lixo com restos de comidas se encontrava destroçada pelo – imagino – vira-lata. Vislumbro-o saltitante correndo atrás dos carros passantes. Estava bem feliz por ter a barriguinha cheia pelo lixo/comida. O monogâmico casal de pombos não estava só – outros casais, também, se faziam presentes degustando e reservando nos seus papinhos o “breakfast” dos seus pimpolhos que ficaram no ninho.

 

Mas os meus olhos queriam ver por onde andaria o meu amigo mendigo. Ao longe vejo-o! Os passantes que por ele passavam não o viam. O seu corpo parecia não ser da matéria que compõe os corpos de todos nós, nos tornando iguais. Aos olhos daqueles que passavam, o corpo daquele mendigo era volátil que, por eles, eram transpassado sem que pudesse ser notado.

 

O sibilante vento açulava o cortante frio – adentro o meu carro! Meus pensamentos divagam: ora, vislumbro o monogâmico casal de pombos sendo enxotado pelo vira-lata na disputa pela comida que havia naquela sacola de lixo. Todavia, a pior de todas as cenas que à minha mente chegava (assustando as minhas retinas) era a daquele mendigo enxotando o vira-lata ao disputar o lixo/comida que pelo chão se esparramava. Em meu cérebro uma pergunta pede resposta:

-Aquilo que via Era Um Ser Humano?

Imagem: Google

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Altamiro Fernandes da Cruz
Enviado por Altamiro Fernandes da Cruz em 14/08/2025
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